Biografia

stanleykubrick02          Stanley Kubrik nasceu em 1928 nos Estados Unidos, na cidade de Manhathan. Viveria a maior parte da sua infância e adolescência no conhecido bairro novaiorquino do Bronx. Aluno mediano, não seguiu estudos universitários. Foi contratado como fotógrafo da revista Look, aos 17 anos, onde permaneceu até aos 21. Ele próprio descrevia-se, na altura, como um rapaz magricela que transportava a sua câmara fotográfica num saco de papel, para não ser confundido com um turista. Os tempos livres eram totalmente preenchidos em salas de cinema, assistindo ao máximo de filmes possível. Como fotógrafo desenvolveria as bases (nos campos da iluminação e da composição) para o seu futuro como cineasta que sempre se regeu pela força da imagem e a obsessão pelo perfeccionismo. Ele próprio chegou a referir que os momentos perfeitos do cinema seriam aqueles que não precisariam de diálogo entre os personagens, apenas imagem e música. No passado dia sete de Março desapareceu uma das maiores figuras da História do Cinema, um dos melhores realizadores de sempre. Ou o melhor, para muitos.       

stanleykubrick03             O Homem do poder absoluto. Numa altura em os cineastas europeus procuravam o abrigo e os Dólares americanos, Stanley Kubrick rumou à Europa em busca daquilo que mais apreciava, não o isolamento como dizem as más línguas, mas sim tranquilidade, segundo o próprio. Indivíduo de vivência caseira, fixou a sua moradia bem perto dos estúdios Pinewood, onde fez todos os seus filmes desde Lolita (até Nascido Para Matar, sobre o Vietnam foi integralmente rodado em Inglaterra).

           Para Stanley Kubrick, a história e a narrativa estava sempre em segundo lugar, o que interessavam eram as imagens. Cada plano fala por si próprio, cada travelling exala fulgor, cada sequência é pensada e construída como se nada mais houvesse. Este perfeccionismo, o absoluto domínio do processo criativo e produtivo, desde o argumento até à projecção, garantiram a Kubrick uma aura de artista difícil e de difícil trato. A propósito da personalidade de Kubrick, em certa altura Jack Nicholson contava uma história que reza assim: "Durante a rodagem de The Shining, estávamos à várias horas sem filmar enquanto Stanley acertava a iluminação, eu tinha estado o dia todo em pé enquanto ele trocava de lâmpadas sucessivas vezes, até que eu pergunto se não seria possível arranjarem-me um stand-in (N.R.: pessoa mais ou menos com a mesma estatura e tonalidade do actor que o substitui nos testes de iluminação), ao que ele retorquiu "Jack, nenhum nariz reflecte a luz como o teu". Isto é meticulosidade no seu estado mais refinado.

          Em 46 anos de carreira Kubrick realizou treze filmes, sete dos quais nos primeiros dez anos. Desde cedo Stanley Kubrick foi um homem à frente do seu tempo (dois exemplos: 1. Em Laranja Mecânica, preconizou o advento do movimento punk, com cinco anos de antecedência. 2. O que é o nosso presente senão aquilo que Kubrick filmava em 2001). Hoje a sua obra é elogiada por todos e muitos o tentam copiar, vejam-se dois casos bem recentes: a) em Jackie Brown de Quentin Tarantino a famosa sequência roubo do centro comercial é uma versão literal do que Kubrick fizera quarenta anos antes em Roubo no Hipódromo. b) as célebres sequências de combate no Resgate do Soldado Ryan têm um estilo visual muito próximo ao que Kubrick adoptara em Horizontes de Glória e que viria a retomar noutro filme de guerra, Nascido Para Matar.
          Fervoroso adepto da técnica e da tecnologia, apesar dos longos períodos sem filmar, Kubrick mantinha-se escrupulosamente a par daquilo do que mais sofisticado se inventava, ou não tivesse sido o próprio Kubrick um dos que mais contribuíram para a evolução das formas de filmar, senão veja-se:

          > Os efeitos especiais de 2001: Uma Odisseia no Espaço, da responsabilidade de Douglas Trombull e do próprio Kubrick são ainda hoje uma referência para aqueles que trabalham nesse domínio. stanleykubrick04

          > Em Barry Lindon o desejo de Stanley filmar exclusivamente à luz das velas (sem recurso a iluminação adicional) obrigou a que fossem inventadas novas emulsões de películas e uma nova lente de grande foto-sensibilidade. Daí resultou uma dos filmes plasticamente mais belos de que há memória.

          > Nos finais dos anos setenta um anónimo cameraman havia inventado na sua garagem um sistema que permitia a captação de imagens com a câmara à mão com uma estabilidade semelhante à oferecida por um tripé. Este invento incógnito e aparentemente inócuo, do qual Kubrik imediatamente percebeu as potencialidades, foi o ponto de partida para The Shining, filme no qual este dispositivo que viria a ficar conhecido como steadicam fez a sua primeira aparição (atente-se na sua soberba utilização nas famosas cenas do labirinto e do corredor).

          Embora se afirme que Kubrick era um cineasta autista, que não via os filmes dos outros realizadores, nada está mais longe da verdade, pois o que acontecia era Kubrick adquiria cópias em película dos filmes em cartaz e ele próprio as projectava na sua sala. Desde 1987 que não concedia entrevista nem se deixava fotografar e o último registo da sua pessoa em película remonta a 1982, altura em a sua filha Vivienne o captou para o making off de The Shining.
          Se o controlo de Kubrick sobre os seus filmes era total, sobre os espectadores o seu controlo não era menor. A visão dos filmes de Stanley Kubrick é uma experiência hipnótica: o caleidoscópio de imagens (2001 e Laranja Mecânica), o magnetismo das vozes off (Laranja Mecânica e Barry Lindon) ou a histeria nunca contida e sempre provocada dos actores (Malcolm McDowell, Jack Nicholson ou R. Lee Ermey) são símbolos de uma obra impar, do homem que queria ser como Deus. Criador...de imagens, é claro!!

 

por Rui Pereira

Fonte: http://www.srcoronado.com/smf/index.php?action=printpage;topic=5924.0